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“Ser Felicitador”

Dr. Seuss, Felicitador

Aaron Ahuvia

Adapt. e traduzido de Ahuvia, A. (2011). Dr. Seuss, felicitator. International Journal of Wellbeing, 1(2).

 

Abstract: Este artigo utiliza a vida e o trabalho de Theodor Geisel aka Dr. Seuss, para falar sobre certos aspetos do que significa ser um Felicitador, ou seja, alguém que traz felicidade aos outros. O foco do Felicitador é essencialmente a promoção da criatividade e a inclusão social das pessoas adotando uma atitude crítica em relação ao materialismo social.

Palavras-chave: felicidade, subjetividade, bem estar, bem-estar subjetivo, materialismo, status social, moda, criatividade.

‘Se as pessoas se transformam pelos  livros que leêm e se a crianca é Pai “pela sabedoria” para o Adulto então o Dr. Seuss, Theodor Seuss Geisel, é o autor, poeta e artista mais influente da atualidade’.

Jhon Granger 2004, do seu artigo Dr. Seuss um Ícone Americano

 

Introdução

A descrição obviamente encumiastica, presente na citação feita por Granger àcerca de Seuss, sublinha como ponto fundamental, que os autores de livros para crianças, podem influenciar potencialmente, muitas vidas. Theodor (Ted) Seuss Geisel (1902-1991), mais conhecido como Dr. Seuss, teve uma carreira longa e variada, mas foi como autor e ilustrador dos mais apreciados livros para crianças do século 20 que ele será mais longamente lembrado.

Atrevo-me a argumentar que através da sua escrita infantil o Dr. Seuss se tornou um Felicitador por excelência.

Um Felicitador é uma pessoa ou objeto que traz felicidade aos outros. Tal como muito bons autores, o Dr. Seuss foi um Felicitador principalmente porque possibilitou fruição e satisfação às pessoas diretamente através do seu trabalho. Porém ele foi um Felicitador no sentido mais profundo do termo,  ajudando a transmitir e a ensinar um conjunto de valores, e uma visão da vida a milhões de crianças. Geisel não gostava do moralismo castrador que era endémico a toda a literatura infantil da sua época, contudo, muitos dos seus livros transmitem uma moral, no sentido subjacente do conceito. Tal como muitos autores de livros para crianças, o seu trabalho, enfatizava, a honestidade, e a responsabilidade que devemos ter na proteção dos mais fracos. Contudo, de um modo mais atípico, principalmente para um autor da sua geração, o seu trabalho enfatizava a criatividade pessoal, enquanto censurava o snobismo, o materialismo, o conformismo e o preconceito.

Estes são os valores que estão subjacentes aos contos escritos por Seuss. Não foram apenas, as frases harmoniosas e as ilustrações encantadoras que deram ao seu trabalho o lugar de destaque que ocupa hoje na literatura infantil.

 

Foram as razões apresentadas anteriormente que baseiam a minha tese de que Seuss foi um Felicitador. Em particular, na minha opinião, os seus livros, pese embora modestamente, tiveram uma influência real em milhões de crianças, encorajando a sua criatividade imaginativa, e desencorajando as atitudes de pseudo superioridade, exclusão social e materialismo. Eu próprio nas minhas investigações, encontrei uma conecção positiva, entre criatividade e felicidade, e as conecções negativas entre snobismo, exclusão social, materialismo, por um ladoe felicidade por outro.

Portanto, se ‘[…] as pessoas são os livros que leêm (Granger 2004), as crianças criadas com os livros do Dr. Seuss, melhoraram as chances de crescerem e de se tornarem adultos felizes’.

 

Imaginação e criatividade:

Desde o princípio que o Dr.Seuss foi “Aliado” do espírito livre das crianças, estando isso patente na sua obra desde o primeiro livro que escreveu. O autor defende que a criatividade na criança deve ser protegida contra a mentalidade retrógrada e estreita das autoridades, como ele próprio poude constatar enquanto trabalhou no ensino secundário, em escolas de artes, onde verificou esse confronto.

Esta perspetiva empática para com a criatividade, é de certo modo completamente solidária com uma visão anti convencional da mesma. O Dr. Seuss é por isso apelidado de ter uma postura anti-autoridade (Lurie 1990).

Os personagens dos livros infantis escritos pelo Dr. Seuss são frequentemente ‘modelados’ para terem uma estratégia que lhes permita manterem o espírito livre e criativo ‘escondendo-o’ dos adultos (Lurie 1990). Um exemplo interessante é o rapazinho Marco, personagem do livro ‘E eu a julgar que já tinha visto tudo em Mulberry Street’ que imagina transformar um cavalinho com a sua carrocinha numa parada de cavalos magníficos. Este personagem, Marco; esconde a sua fantasia, produto da sua imaginação e criatividade, do pai que já o tinha avisado para deixar de contar parvoíces sem sentido.

É muito frequente encontrar, nas histórias do Dr. Sauss, personagens imaginativos e engraçados, que desempenham o papel de ‘Felicitadores’ trazendo felicidade e alegria a todos à sua volta.

Dr. Seuss, também demonstrou o facto da criatividade e imaginação serem atividades intrinsecamente gratificantes. Por exemplo, e voltando ao personagem Marco acima referido,ele, nunca contou ao pai a sua estória imaginária. Este facto deixou-o cheio de energia e contentamento:

Marco:

  • Virei a esquina
  • Saltei o portão
  • Corri escada acima
  • E senti-me simplesmente o Maior!!!

Ninguém pode negar que a criatividade nos faz sentir bem, mas também nos fazem sentir bem muitas outras atividades que a longo prazo se mostram prejudiciais para o ser humano. Mesmo aceitando a premissa que grande quantidade dos livros escritos pelo Dr. Seuss influenciaram muitas crianças a valorizarem e a participarem em projetos e situações que requereram criatividade e imaginação, será que isto por si só faz do Dr. Seuss um ‘Felicitador’? O que nos dizem os dados científicos àcerca do assunto, imaginação, criatividade e felicidade?

Existe um número significativo de literatura mostrando que estar feliz aumenta a criatividade. A felicidade aumenta a capacidade criativa porque as emoções positivas aumentam por sua vez a capacidade mental, promovendo uma atitude mais relaxada e mais aberta a novas experiências.

 

Criatividade e Felicidade no Local de Trabalho:

Existem também alguns estudos que indicam que no local de trabalho, pode criar-se o chamado ‘círculo virtuoso’, quando existe felicidade e apoio à criatividade. Neste contexto os trabalhadores criam um maior envolvimento com as organizações para quem trabalham, aumentando deste modo a produtividade e a qualidade do trabalho prestado. Esta atitude cria por consequência um feedback positivo da parte dos responsáveis das empresas o que se concretiza na assunção por parte dos empregados, de que o local de trabalho é um lugar onde existe felicidade e êxito profissional.

Fig.1- Empregado ‘Criatividade’ e ‘Felicidade’

 

Existem ainda relativamente poucos estudos àcerca do impacto da criatividade e do seu contributo para a felicidade do indivíduo e dos outros em geral, contudo, a informação disponível sustenta que, encorajar a criatividade e a expressão do Eu, aumenta a felicidade pessoal e tem um efeito positivo na sociedade no seu todo. Inclusivamente, foi levada a cabo uma experiência, em ambiente controlado, onde se verificou que doentes com depressão clinicamente diagnosticada, melhoravem consideravelmente com a estimulação da atividade criativa para fins terapêuticos.

 

Consumo, materialismo e exclusão social

O Dr. Seuss foi autor the vários livros entre os quais The Sneetches, que é uma parábola sobre a exclusão social, que ele próprio viveu enquanto criança. Outros assuntos marcantes nas obras do autor são os preconceitos sociais, raciais e religiosos. Em The Sneetches, o autor escreve sobre o efeito da moda enquanto forma de diferenciação social e elitismo.

 

Felicidade, dinheiro e jogos de poder

O Dr. Seuss no seu livro The Sneetches trata igualmente o consumismo e o materialismo como formas para alcançar status social, moldando as relações entre as pessoas de forma negativa. Segundo o autor, os objetivos materialistas estão associados a posturas dominantes e competitivas (vs. cooperativas) nos ‘jogos’ sociais e a uma diminuída empatia e aceitabilidade do outro. Em contrapartida, foi demonstrado que establecer relações sociais afáveis e calorosas (ex. casamento, família, trabalho) são indicativo de estádios de felicidade. Estudos científicos revelam que o materialismo está associado à infelicidade, pois despoleta sentimentos de inveja, falta de generosidade e possessividade, nos indivídos. Além disso, os estádios de felicidade mais constantes parecem estar relacionados com objetivos de vida intrínsecos, e o materialismo (ex. sucesso financeiro, popularidade, etc) está incluído nos objectivos de vida extrínsecos. Altos níveis de autodeterminação e de felicidade duradora no indivíduo estão dependentes da priorização de valores intrínsecos e de objectivos extrínsecos.

 

Conclusão

Este artigo apresenta o argumento de que o Dr. Seuss é um ‘felicitador’. Para além do enorme prazer que os seus livros trouxeram às crianças e aos pais, o seu trabalho defendeu a importância da imaginação e da criatividade e não apenas da tolerância, bem como da inclusão, da apreciação e da aceitação entusiástica do que é diferente. O Dr. Seuss defendeu a necessidade do desenvolvimento da criatividade porque entendia que só pensamento criativo permite ‘criar (realmente) coisas’. Citando o autor no livro The Sneetches

‘That the Sneetches got really quite smart on that day,
The day they decided that Sneetches are Sneetches
And no kind of Sneetch is the best on the beaches.
That day, all the Sneetches forgot about stars
And whether they had one, or not, upon thars.’

[Os Sneetches estavam bastante espertos naquele dia,
No dia em que eles decidiram que um Sneetch é um Sneetch,
E que nenhum Sneetch é melhor do que outro quando vai à praia,
Naquele dia, todos os Sneetches se esqueceram das estrelas,
Quer tivessem uma ou não]

Seguramente, este é um conselho ‘felicitador’ para todos nós.

Traduzido para português por Rosa Maria Oliveira

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